REPUBLICANDO UM TEXTO ANTIGO, SOBRE TORCER PARA O ATLÉTICO E A MINHA PAIXÃO POR FUTEBOL
No dia 29 de junho de 2000, pelas semi-finais da Copa do Brasil, o Atlético Mineiro (CAM) perdia o jogo de ida no Morumbi para o São Paulo - 3x0, dois gols marcados depois dos 40 minutos do segundo tempo. No mesmo dia e horário, no Mineirão, o Cruzeiro batia o Santos por 2x0. Os placares praticamente definiam que a final seria disputada por tricolores e celestes. Colocavam, também, o fim a uma ilusão. Uma ilusão minha. E escancarava toda a realidade do futebol para o torcedor atleticano.
O primeiro campeonato de futebol que acompanhei, pra valer mesmo, foi o Mineiro 1993. Esse campeonato, vencido pelo América, me reservou a primeira grande decepção séria com o futebol, enquanto eu ouvia, no velho rádio de pilha de meu avô, a um atordoante 4x0 impostos pelos americanos pela fase final do campeonato. Tal jogo, se minha memória não me trai, contou com um time alvinegro tão desligado do que se passava em campo que o adversário soltou a bola tanto no início do primeiro quanto do segundo tempo.
No segundo semestre daquele ano, meu primeiro Brasileirão. Empolgação! Meu time iria enfrentar os maiores do país. Entendia pouco de bola. Sabia que o time não era dos mais fortes, mas coração de torcedor já viu, né? Jogamos 14 partidas naquele campeonato. Ganhamos uma. Empatamos duas. Fizemos sete gols. Lembro de ouvir um jogo contra o Sport-PE, agarrado ao rádio, deitado na cama, chorando enquanto perdíamos por 1x0 em BH...
A partir do ano seguinte (apesar do fracasso da Selegalo no primeiro semestre), acabei me acostumando a ver o CAM sempre bem nos campeonatos, sempre digno, mas batendo na trave nos momentos decisivos. Aliado a isso, vi nosso maior rival conquistando a Copa do Brasil por duas vezes nos anos 90 e uma Libertadores da América, além de dominar o campeonato estadual. Eu sofria com isso. Mas não sofria tanto. Eu tinha um sentimento sincero, baseado no que observava no futebol dos outros estados, de que a balança sempre se alternava entre os grandes rivais. Era óbvio que, mais cedo ou mais tarde, de tanto bater na trave eu acabaria comemorando uma grande conquista de meu time. Uma hora um time estava bem, outra hora era o outro time que estava bem... Era questão de tempo ver meu time em alta... dali a pouco, o CAM voltaria a ser o maior de Minas Gerais...
Aí, eu entendi que esse dia estava perto de chegar.
Em 1999, eu cursava o primeiro período da faculdade. Morava longe do campus, ia todo dia de ônibus lotado. Acordava cedo, ia de pé, já chegava cansado pras aulas. Mas era o dia 10 de novembro. E nesse dia eu não teria a primeira aula, de modo que acordei mais tarde, me arrumei com calma, peguei um ônibus vazio, me sentei na janela de um dos bancos do lado esquerdo do antigo 5102 e comecei a pensar nos jogos que aconteceriam à noite. Era a última rodada da fase de classificação do Campeonato Brasileiro 1999. O CAM precisava vencer o Grêmio em BH e torcer por uma certa combinação de resultados para ficar entre os oito que passavam de fase. E, se isso acontecesse, dependendo de uma combinação maior ainda, enfrentaria o Cruzeiro pelas quartas de final. E comecei pensar como seria se isso acontecesse e nós eliminássemos os rivais. E, imaginando a possibilidade, eu chorei... Chorei mesmo, que nem um besta, dentro do ônibus e sem motivo aparente...
Nesse dia, atípico, saí da faculdade à noite. E vi, do ponto de ônibus, o Mineirão cheio e iluminado. No busão, ouvia o jogo no rádio e ao chegar onde morava a classificação já estava encaminhada. E pegamos os rivais nas quartas. E ganhamos dois jogos, passando incontestavelmente de fase. E (mais uma vez) QUASE fomos campeões. E os rivais perderam a vaga pra Libertadores seguinte de forma melancólica em um torneio seletivo. E jogamos a Libertadores (perdemos, mas fomos um time de verdade). E viramos um clássico sensacional na primeira fase do Mineiro. E fomos campeões mineiros em cima do Cruzeiro, sem perder um jogo sequer pra eles. E estávamos pela primeira vez em uma semi-final da Copa do Brasil. Éramos, finalmente, o grande time do estado! O time a ser batido!
Lembro de pensar exatamente isso. Agora as coisas vão ser diferentes! Vão ser diferentes por um tempo, depois elas voltam a ser como eram antes. Mas tudo bem, porque futebol é assim. E essa é a graça do futebol! Ver dois rivais gigantes se alternando no comando do futebol do estado é algo saudável, emocionante... Faz parte do futebol! É dessas coisas que faz o futebol ser isso que é: a maior e melhor invenção da história!
Aí, veio o já citado 29 de junho de 2000. Nós não apenas fomos eliminados oficialmente após um 3x3 em casa no jogo de volta (saímos do campeonato sem uma vitória sequer, acreditem, as classificações vieram todas na base dos empates), como assistimos aos rivais serem campeões com uma virada fenomenal aos quarenta e vários minutos do segundo tempo...
Não dava pra aceitar. Foi uma porrada muito violenta! Era muita maldade pra uma torcida gigante, a maior do estado, uma das mais fanáticas do país! Um dos maiores clubes do país não pode ficar tanto tempo assim sem grandes títulos! Mas, peraí... Maiores clubes do país? Maior torcida do estado?... Acho que foi mais ou menos nessa época que começou a cair a ficha que as coisas podiam não ser bem assim. Começou a ficar meio óbvio que a torcida não era tão grande como se pensava. Com o tempo, foi ficando difícil achar criança atleticana... Mulher atleticana virou artigo de luxo. E por que mesmo o time é tão grande? Porque tem uma das maiores torcidas... Tem? Porque está sempre disputando títulos... Está? Putz... nem tenho outros argumentos pra colocar aqui pra defender tanta grandeza pro time...
O ano 2000 foi realmente uma virada futebolística pra mim. O fim de muitos mitos, muitas ilusões, muitos sonhos. Foi quando começou a surgir uma sensação de que meu time era aquilo e pronto. Não ia ter mais do que isso. Não tinham mais nada para oferecer.... Se eu quisesse continuar sendo torcedor, se quisesse continuar acompanhando futebol (e eu queria, como queria - e ainda quero - e sempre vou querer), deveria me acostumar com isso. Deveria me acostumar em ser sempre o coadjuvante, nunca o protagonista...
Depois dessa grande decepção, veio o 20º lugar no Brasileirão daquele ano, com direito a 0x6 em casa contra o Sport (enquanto o rival liderava todo o campeonato). E o vice do Mineiro do ano seguinte com goleada na final pro América (de novo). E eliminação pelo maior rival na Sul-Minas. E um novo quase no Brasileirão de 2001. E eliminação pelo rival, de novo, na Sul-Minas. E os 0x3 contra o Brasiliense em 2002. E os 2x6 contra o Corinthians no Brasileirão. E a máquina que o rival montou em 2003, ganhando tudo. E o AGORA VAI de 2004 (ah, agora que o Cruzeiro ganhou o Brasileiro o CAM vai ser obrigado a se estruturar pra não ficar pra trás). E o vice do mineiro pro rival, de novo. E sair da Copa do Brasil pro Santo André. E quase rebaixado no Brasileiro. E ser eliminado na semi-final do Mineiro de 2005 pelo rival. E o rebaixamento nacional em 2005. AH, O REBAIXAMENTO... E ser eliminado, de novo, na semi-final do Mineiro de 2006 pelo rival. E andar pelo andar de baixo na classificação da segundona. E ver o rival ressurgindo no ano seguinte, conseguindo uma improvável classificação pra Libertadores. E levar 5x0 na final do Mineiro, no ano do centenário. E passar o centenário lutando pra não ser rebaixado. E passar o centenário sem ganhar um clássico. E tomar incontáveis goleadas no centenário. E levar 5x0, de novo, na final do Mineiro. E passar 12 clássicos sem vencer e só voltar a vencer contra um time reserva. E ficar na ponta todo o campeonato, enquanto o rival tá lá embaixo e ver tudo se invertendo na última rodada...
E não é só isso. Não são só exemplos objetivos. São várias pequenas situações ao longo dos anos. Ver o desprezo com que a imprensa nacional nos trata. Ver o desprezo com que a torcida dos outros times nos trata. Sentir que não botamos medo em ninguém. Que estamos relegados a segunda força, a segunda categoria, a segundo escalão...
Eu adoro futebol. Eu amo futebol. Eu assisto todo jogo que posso. Eu vou em todo jogo que posso. Eu me interesso pelo que acontece em todos os campeonatos que conheço. Sou capaz de me emocionar com gols de várzea, de times da segunda divisão, de seleções obscuras. Já doei dinheiro pra ajudar time da segunda divisão da Paraíba a não fechar as portas. Já fui no campo sozinho várias vezes, por não arrumar companhia, só pra poder sentir aquele clima de futebol - mesmo quando não era meu time que tava em campo. Já chorei em lances bonitos, já chorei por vez momentos difíceis de outros times, já chorei por ver grandes vitórias de outros times...
E agora, escrevendo esse monte de coisa que ninguém vai ter saco pra ler, quatro horas depois do final de um campeonato que me enganou mais uma vez, que me deu esperanças, mas que acabou do mesmo jeito de sempre... ainda sinto a mesma dor de cabeça que me atormenta nas grandes derrotas, a mesma vontade de vomitar, a mesma visão embaçada... Mas eu penso: ainda bem que os anos de derrotas, a sensação constante de ser traído por quem eu amo, as humilhações e tirações de sarro não me fizeram deixar de gostar de futebol, de me emocionar com o futebol... Ao menos isso pra me consolar. Minha paixão pelo esporte é, hoje, maior do que nunca...
Eu vejo tanto torcedor por aí reclamar de seu time. Meter o pau mesmo, cegamente. Não entender como as coisas funcionam, achar que seu time tem a obrigação de ganhar sempre. Achar que quando não ganhou é porque tá tudo errado, é culpa do próprio time... o técnico é burro, a diretoria é incompetente, os jogadores são pipoqueiros. É um tal de estar sempre insatisfeito com as coisas que dá até preguiça. O que não entendem é que futebol é isso mesmo. De vez em quando ganha e de vez em quando perde. É a magia do futebol: poder sonhar e, de vez em quando, realizar esse sonho...
Tenho fama de ser pessimista. Isso é porque eu sempre me exalto contra meu próprio time, sempre espero o pior, tenho dificuldades para acreditar que, um dia, os meus sonhos no futebol vão se realizar. Mas, ora, em quase vinte anos de futebol, meus sonhos nunca se realizaram pra valer. Nunca se realizaram de forma plena! Nunca! Enquanto eu via os sonhos dos outros virando realidade, os meus só viravam pesadelos com enredos cada vez mais elaborados... Como vou acreditar no contrário, se os fatos estão sempre aí pra me acordar a bofetadas enquanto sonho?
E é isso que eu sinto hoje... O futebol é mágico, é maravilhoso. Eu nunca vou abandoná-lo. Mas sempre sabendo que, enquanto os outros podem seguir correndo atrás de seus sonhos, para nós atleticanos só restou a realidade...